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SEGREDO

Vou contar um segredo pra vocês. Mas só se me garantirem que não contarão a mais ninguém. É parte do meu passado enlameado e me condena.

 

Em verdade vos digo, amigos: Maria Madalena sempre esteve no podium dos meus alter-egos.

 

Mas se pensarmos bem direitinho vamos concluir que toda mulher gostaria de experimentar um tanto da vida dessa criatura que ao final das contas contou com o perdão do Senhor, e que perdão, hein?

 

Pois é, minha gente, assim como a madrasta miseravona da Branca de Neve  Maria Madalena é um tipo de personagem que faz um sucesso danado, de bastidores, entendem? Nada muito ventilado, coisa meio dita à socapa, nos esconsos das confissões, em meio a bebedeiras, pois como se sabe a bebida é um destravador oficial de segredos inconfessáveis…

 

E que ninguém venha me dizer que há mulheres que não têm tais segredos.. Oh, santa inocência, Batman!

´´A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.´´

 

Alceu Valença

Que glória pertencer ao abençoado gênero humano e poder se beneficiar da melhor dentre as suas mais fantásticas características, a dissimulação.

 

Pobres seres irracionais que carregam consigo a maldição da transparência, a praga orgânica da fisiologia.

 

O que seria de nós se pudéssemos enxergar uns aos outros sem o azeite social da dissimulação?

 

: O

SAUDADES..

Ser um tanto masoquista.. mas com classe, sabe como é? Sofrer, se desesperar, se descabelar, atirar-se ao abismo, mas tudo isso sem mover um só músculo da face. Aprender pacientemente a ocultar sob sete segredos o que vai dentro de si. Ter por dentro um leopardo faminto e enfurecido a rasgar-lhe as entranhas e não aparentar sequer uma leve indisposição.. 

Se é fácil? 

Vem experimentar.

O QUE PODE SER O DIABO…

Sabe o que? Ser um pária musical. Isso é verdadeiramente o diabo.

Trafegamos nas sombras, somos observados como se houvéssemos praticado crimes inafiançáveis.. ou riem, deplorando, ou temem, sem sequer saber o que temem de verdade.

É isso.

( Medo )

De que?

De sucumbir ao monstro da vaidade.

Não, mas não é pra já, não prá agora, não pra mim.

Durante toda a minha vida confinei e doutrinei a minha personalidade vaidosa para não cair na tentação dourada dessa armadilha.

Penso que esteja preparada pra qualquer teste.

Penso.

Mas não me preparei pra administrar vaidades alheias e isso vem se mostrando tarefa das mais complicadas e irritantes.

Onde está o limite da vaidade? O que pode destitui-la do pódium ilusório?

Ora, mais! Está claro como água!

O caráter fugaz da vida.

ACORDEM!!! Não vamos durar para sempre!!!

ELIZABETH TAYLOR _ 2008

ANTES

DEPOIS

Ô, coisa chaaaaata!!!

E nem é São João…

Fui ao show do incensado João Gilberto. Joãozinho de dona Patú.

E posso assegurar que me encontro inteiramente perdida em análises de cunho inútil..

Porque, veja bem. Não existe a menor, a mais ínfima possibilidade, a mais microscópica e infinitesimal probabilidade de todo aquele público gostar de João Gilberto. São mil e setecentos baianos, soteropolitanos, pais tropical, praia, sol, carnaval, pense bem, AGUENTANDO a maluquice e as idiossincrasias do moço, não dá pra crer nisso..

Estou entre estupefacta e desiludida com a raça humana..

Por que?

Então tá, vamos lá, ainda que em tempos de complacência.

O show estava marcado para as vinte e uma horas.

É sobejadamente conhecido o rigor com que o TCA trata os seus contratantes e público. Atrasos não são permitidos, há um acordo atualmente quase tácito eu diria, que reza o bom cumprimento dos compromissos marcados, todo mundo tem horários e agendas, ninguém mais tem tempo a perder em condescendências temporais.

Mas o fato é que Mister Gilberto entrou em cena às vinte duas e cinco. Uma hora de atraso. Desculpou-se com três ou quatro palavras sussurradas ao microfone, sorriu com aquele sorriso de cachorro que rasgou o saco do lixo e deu início à apresentação.

E a platéia, educada, refinada, chique, inglesa quase, lordes e ladies compostos em seus trajes domingueiros, ´cheirando a guardado de tanto esperar´, quedou-se estática preparando-se para o concerto.

Mas olha só, minha gente, eu, quando fiz a Faculdade de Música da Universidade Católica do Salvador, não quero me gabar não, sabe?, mas eu só tirei dez em percepção musical, só nota dez, e a professora era Dona Majú, célebre pela tirania, aluna que fora de Bidu Saião e do maestro Villa
Lobos
, Dona Majú não deixava barato, era um negócio..

Pois.

Dez em percepção com Dona Majú e zero em audiometria no TCA.

João de Patú tá cada vez mais etéreo e transpõe com maestria essa característica pro cara da mesa de som..

Não se ouvia PORRA NENHUMA da voz do maluco beleza, cantando aos sussurros, coisa mais inacreditável!..

E aquelas pessoas, aquelas mil e setecentas pessoas, cem delas a tossir desesperadamente, aflitas pelos ácaros intelectuais que habitam perenemente a sala principal do teatro e aflitas por medo de receber uma ´comida de rabo´pelo mestre dos mestres, o costureiro da roupa nova do rei, Monsieur Gilbertô.

Tô velha, minha gente. Não dá pra mim. Gosto de coisas que posso gostar verdadeiramente. Tipo arroz com feijão e ovo frito, banho morno, cama macia, lençol cheiroso, Dori Caymmi cantando, Chet Baker tocando, o sol morno das cinco horas da tarde, dormir e sonhar coisas boas, perfume gostoso, cheiro de comida ou de café passado no ar, coisas assim…

Não tô mais em condições neurológicas de fingir que gosto de uma coisa e levar TRÊS HORAS sentada, imóvel e muda, FINGINDO..

Sim, porque J. G. tocou por DUAS HORAS E MEIA. Dessa vez até o pato, aquele que ´vinha cantando alegremente, quém, quém´ parecia completamente afônico e lombrado de marijuana..

RESUMINDO:

Sou uma ignorante, não entendo nada de música, não sei nada sobre sofisticação, sou surda e ando muito impaciente.

CARTAS PARA A REDAÇÃO.

Tivemos ontem em Salvador o segundo show realizado pela Dupla Produtora dentro do projeto Loucos por Música. O show aconteceu na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

Ivete Sangalo e Ângela Rorô.

Ivetinha me chamou pra cantar uma canção com ela, uma que a gente ama e canta desde muito tempo, de Paulo Diniz, Como?

Ivetinha é hoje a maior cantora do Brasil, a mais popular e a mais encantadora.

É hoje, né?

Mas pra mim sempre foi. E sempre será. Sou a sua melhor fã. Não lhe dou trabalho, não lhe cobro, não lhe peço, apenas amo.

E mais não digo. Ponto final.

Dizer que a Concha Acústica do Teatro Castro Alves em Salvador é um lugar mágico pra se fazer show é ser clichê mas eu nem me importo: _ A Concha Acústica do TCA é MARAVILHOSA! É lindo demais ver aquela arquibancada cheia, o povo fica bem pertinho do artista, acontece uma fusão sensacional, é uma grande farra mesmo!

Ainda que eu seja esse porco-espinho já cantado em prosa e verso não fico imune àquela efusividade popular, pode parecer um contra-senso mas eu adoro gente, gente de verdade, gente do povo, não é à toa que os meus melhores amigos pertencem à turma dos orêia-secas, é gente que sabe se divertir de verdade e que não vive de aparências inúteis.

Por esses dias um amigo me perguntou se eu era tímida. Respondi-lhe que não, mas acho que me precipitei. Sou sim, tímida, e sendo tímida às vezes é um tormento saber que não posso me furtar à minha necessidade fisiológica de ser artista, de me expor, de sair da minha toca tão resguardada.

É difícil. É como ter uma enfermidade. É como saltar de para-quedas.. é lindo, mas dói..

A Ângela é uma graça. Cantora afinada, precursora do famoso contralto tão desejado, competente compositora, delícia de canções, e ainda assim meio frágil, uma blueseira franco-atiradora que ao final das contas é somente alguém que faz apologia desmesurada ao bendito amor, esse mesmo que pode levar aos céus mas também pode fazer descer ao mais denso dos infernos.

Eu sei bem o que é isso, Angelita.

Também às vezes vejo inimigos onde não há inimigos.. a força do hábito..

Ah! E também às vezes olho no espelho e vejo uma inimiga.. a força do hábito..

Minha admiração e meu respeito prá você.

A frase me doeu o ouvido: _ Mônica, você é uma formadora de opinião.

Não!, por Deus, não me rotule com essa bobagem criada pelo jornalismo desocupado que assola a humanidade!

_ Ah, sim, você é, sim senhora!

_ Larga mão de ser idiota, *, que coisa mais besta isso, você anda vendo muita novela, e até onde me lembro faz bem pouco tempo que você era um cara normal, que não acreditava nesse monte de baboseira que andam criando pra capitalizar certas funções sem nenhuma importância, se é que você me entende..

_ Você tá é fazendo tipo, claro que você sabe que é sim, formadora de opinião, pode perguntar a quem você quiser..

_ Sou nada, ´formadora de opinião´, coisa mais ridícula, sou nada disso não, meu compadre, ser isso de que você está me acusando implica em tomar certos posicionamentos e atitudes que não podem e nem devem ser vistos à luz clara do dia.. Ou você desconhece a moeda corrente de troca entre essas ´personagens´?

Irritada dei um fim naquela conversa cretina e desliguei o telefone.

E agora me pego pensando nessa prosa inútil e me sentindo mesmo um ser de outro planeta.. se eu pudesse optar por não compartilhar a mesma época em que esse fenômeno está acontecendo, o fenômeno do uso equivocado que o mundo está fazendo da sua capacidade de raciocínio, talvez eu fosse mais feliz..

Tenho visto tanta gente entrar nesse conto de vigário..

Noutro dia lamentei o rosto da cantora Elba Ramalho, vítima preferencial dos tais ´formadores de opinião`.. Baseando-se neles a cantora detonou um processo de transformação facial absurdo e muito provavelmente em pouco tempo ficará irreconhecível até mesmo para os seus..

Ô!.. Mas a voz corrente não diz que a mulher tem que ser jovem ainda que isso lhe custe a própria identidade? Elba tem viajado nessa premissa e pra meu desgosto

( porque eu sou ( argh!) fã de Elba! )

eu lamento informá-la de que é viagem sem volta..

E outro exemplo engraçado e triste, ao menos prá mim, é o de uma criatura que me abordou perguntando porque eu não dava uma tela minha a fulana de tal, que ADORAVA minhas telas, ela é famosa, é muuuuiiiito famosa, é bom prá você que ela tenha uma tela sua na casa dela, Mônica!

Ô, Senhor! Oh!, Deus! Ainda não fui clara o suficiente?

Não, querida, respondi pacientemente, não me interessa ter uma tela minha na casa dessa pessoa, não comungo com os motivos que a fizeram estar célebre, agradeço o fato dela gostar das telas, ela pode até comprar telas, o dinheiro compra tudo, não é?, eu tenho marchand é mesmo pra isso…

Mas dai a DAR uma tela minha de PRESENTE a essa pessoa por que a mesma é FAMOSA e a casa dela vai ser fotografada prá revista FACES, não mesmo, não julgo que seja forte o motivo..

Pois é. Essa pessoa famosa também é considerada ´formadora de opinião`. Adotar essa classificação me faria no mínimo sua ´colega`…

Não, obrigada.

BRILHO.. E CALOR

O que será aquele misterioso componente que faz com que umas pessoas brilhem e outras sejam absolutamente apagadas?

Não, não estou falando de roupa assim ou assado, ou cabelos com esse ou aquele penteado.. estou falando de gente que brilha. Que brilha, sabe como é?

Que quando fala qualquer coisa, até mesmo quando é banal, quando informa um endereço ou comenta alguma trivialidade, nesses momentos a pessoa brilha..

Conhece alguém assim? Alguém que esbanja charme quando cruza displicentemente a perna, ou que dirige um carro velho e faz com que aquilo pareça a coisa mais divertida que há pra se fazer, ou alguém que lhe convida prá visitar um lugar incrível que tem.. estampas adesivas diferentes! Não é demais?

Não, nada de coisas eletrônicas recém-lançadas ou reluzindo de novas, não, nada disso!

Falo de charme, daquelas pessoas que sabem bem o que seja ter visto e entendido a Malena de Giuseppe Tornatore.. E que também reconheçam que água pode ter sabor especial, textura, e momento..

Conhece alguém assim?

Que dividiu com você uma situação inteiramente nova mas absolutamente corriqueira e que com isso aqueceu seu coração?

Falo daquelas pessoas que coreografam as próprias mãos inconscientemente, hipnotizando os olhos de quem está por perto, transformando essa bobagem num indelével carimbo dentro da memória..

É.. Não sei se me entende..

Sabe quando alguém se retrata dum erro com um sorriso entregue, inteiramente entregue, do tipo ‘faça o que quiser, me castigue, ainda assim vou querer estar em sua companhia’..

É disso que eu estou falando.

Não, não, nada disso, não é fácil de achar.. charme é uma nuvem de algodão doce e dourado, é bolha de sabão.. Não é pra todo mundo não.

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