Fui ao show do incensado João Gilberto. Joãozinho de dona Patú.
E posso assegurar que me encontro inteiramente perdida em análises de cunho inútil..
Porque, veja bem. Não existe a menor, a mais ínfima possibilidade, a mais microscópica e infinitesimal probabilidade de todo aquele público gostar de João Gilberto. São mil e setecentos baianos, soteropolitanos, pais tropical, praia, sol, carnaval, pense bem, AGUENTANDO a maluquice e as idiossincrasias do moço, não dá pra crer nisso..
Estou entre estupefacta e desiludida com a raça humana..
Por que?
Então tá, vamos lá, ainda que em tempos de complacência.
O show estava marcado para as vinte e uma horas.
É sobejadamente conhecido o rigor com que o TCA trata os seus contratantes e público. Atrasos não são permitidos, há um acordo atualmente quase tácito eu diria, que reza o bom cumprimento dos compromissos marcados, todo mundo tem horários e agendas, ninguém mais tem tempo a perder em condescendências temporais.
Mas o fato é que Mister Gilberto entrou em cena às vinte duas e cinco. Uma hora de atraso. Desculpou-se com três ou quatro palavras sussurradas ao microfone, sorriu com aquele sorriso de cachorro que rasgou o saco do lixo e deu início à apresentação.
E a platéia, educada, refinada, chique, inglesa quase, lordes e ladies compostos em seus trajes domingueiros, ´cheirando a guardado de tanto esperar´, quedou-se estática preparando-se para o concerto.
Mas olha só, minha gente, eu, quando fiz a Faculdade de Música da Universidade Católica do Salvador, não quero me gabar não, sabe?, mas eu só tirei dez em percepção musical, só nota dez, e a professora era Dona Majú, célebre pela tirania, aluna que fora de Bidu Saião e do maestro Villa
Lobos, Dona Majú não deixava barato, era um negócio..
Pois.
Dez em percepção com Dona Majú e zero em audiometria no TCA.
João de Patú tá cada vez mais etéreo e transpõe com maestria essa característica pro cara da mesa de som..
Não se ouvia PORRA NENHUMA da voz do maluco beleza, cantando aos sussurros, coisa mais inacreditável!..
E aquelas pessoas, aquelas mil e setecentas pessoas, cem delas a tossir desesperadamente, aflitas pelos ácaros intelectuais que habitam perenemente a sala principal do teatro e aflitas por medo de receber uma ´comida de rabo´pelo mestre dos mestres, o costureiro da roupa nova do rei, Monsieur Gilbertô.
Tô velha, minha gente. Não dá pra mim. Gosto de coisas que posso gostar verdadeiramente. Tipo arroz com feijão e ovo frito, banho morno, cama macia, lençol cheiroso, Dori Caymmi cantando, Chet Baker tocando, o sol morno das cinco horas da tarde, dormir e sonhar coisas boas, perfume gostoso, cheiro de comida ou de café passado no ar, coisas assim…
Não tô mais em condições neurológicas de fingir que gosto de uma coisa e levar TRÊS HORAS sentada, imóvel e muda, FINGINDO..
Sim, porque J. G. tocou por DUAS HORAS E MEIA. Dessa vez até o pato, aquele que ´vinha cantando alegremente, quém, quém´ parecia completamente afônico e lombrado de marijuana..
RESUMINDO:
Sou uma ignorante, não entendo nada de música, não sei nada sobre sofisticação, sou surda e ando muito impaciente.
CARTAS PARA A REDAÇÃO.